Colonialismo subaquático

Exploração de recursos cetáceos e minerais

Não é a primeira vez que a mão colonizadora do homem se foca no mar dos Açores como fonte de recursos a extrair. A revolução industrial utilizou o óleo de cetáceos como principal fonte de iluminação e lubrificação da maquinaria industrial. A caça às baleias não-sustentada nos séculos XIX e XX fez com que estas se tornassem na espécie selvagem alvo do ataque mais prolongado e sistematizado da história da humanidade. Este é um facto que se cruza profundamente com o passado açoriano que aqui relacionamos com outro recurso do fundo do seu mar—o minério— nomeadamente nódulos de manganês, cobalto, e nódulos polimetálicos, de onde podem ser extraídos outros metais e minerais raros. Apesar destes recursos serem principalmente utilizados para comunicações, estas minas têm sido promovidas como uma forma de colmatar a falta de matéria-prima para a transição para as energias renováveis. No entanto, esta afirmação é altamente questionável, pois vários relatórios têm provado que é possível uma transição total para energias renováveis até 2050 sem haver necessidade de utilizar minerais dos fundos marinhos. 

Há ainda um profundo desconhecimento sobre o mar profundo ou que tipo de espécies habitam nele, no entanto os planos de prospeção e extração avançam já, sem medidas de precaução. As atividades de extração de minério estão planeadas ao largo das áreas marinhas reservadas do parque marítimo açoriano onde a biodiversidade é extremamente rica, bem como os caminhos migratórios de várias espécies em vias de extinção, como é o caso de alguns cetáceos. 


Grandes quantidades de biodiversidade por mapear

Mediante as discussões recentes sobre o antropoceno, que contextualizam a pegada humana e sua intervenção no planeta como tendo marcado amplamente os sistemas naturais, deveremos enquadrar com mais seriedade a amplitude das nossas pegadas ecológicas, confrontando-nos com a escala das nossas ações não apenas mediante a longevidade do humano, mas tendo em conta a amplitude da escala geológica em que os ecossistemas do planeta estão inseridos.

Muitos dos habitats dos montes submarinos e cones hidrotermais são únicos, com espécies endémicas muito raras que demoraram milhares de anos a desenvolver-se. Nas profundidades abissais há formas de vida com processos de evolução especiais, como as que sobrevivem à base de outras transformações ao nível da síntese química, produzindo energia e matéria viva de forma muito delicada e ímpar. E é exatamente no âmbito dos seres que crescem mediante este processo de síntese química que se crê que a evolução da vida poderá ter surgido.  Sobre o habitat vulnerável destas espécies biológicas cuja resiliência desconhecemos ainda pouco se sabe, é agora mais importante que nunca manter o equilíbrio frágil destes ecossistemas para que não se percam irremediavelmente. 


Produção de conhecimento em conflito

O fundo do mar continua a ser uma verdadeira fronteira do desconhecido. É comum dizer-se que se sabe mais sobre a superfície de Marte que sobre o fundo dos oceanos e, com efeito, apenas três pessoas exploraram num submersível a Depressão Challenger, identificada como potencialmente o ponto mais fundo do mar, enquanto que ao espaço já foram pelo menos quinhentos astronautas. Também o fundo do mar no século XXI vê a sua exploração condicionada por empresas privadas, que a troco de concessões para extração de minério oferecem os meios para que se efetuem estudos científicos. Há uma partição entre os interesses da investigação científica e a mão abrasiva da exploração industrial que aqui se confunde, através da viabilização de verbas para estudos em mar profundo que de outra forma não seriam possíveis. É urgente limitar a dependência da academia por fundos para investigação dependentes do sector privado extrativista, e aumentar as oportunidades de estudar uma natureza sem que a contra-partida seja a eventual exploração dos recursos aí existentes, sobretudo se for de forma nociva para os ecossistemas.


Violência acústica subaquática

Também as formas de mapeamento e estudo territorial produzem efeitos abrasivos nas comunidades submarinas se não forem revistas. Há efeitos cumulativos da atividade industrial submarina que terão consequências mais invisíveis sobre os ritmos de vida dos ecossistemas mas não de menor impacto, como por exemplo a violência acústica. Nas últimas décadas a quantidade de navios em circulação aumentou exponencialmente, bem como a intervenção de plataformas off shore, tendo por suporte técnicas de sísmica de reflexão e refração para prospeção geofísica. Esta técnica utiliza bombas de ar comprimido especializadas e ondas sísmicas para mapeamento da crosta terrestre, da sua topografia e tipos de minério incluídos nesta. Utilizando uma técnica semelhante à ecolocalização - que também é a base de comunicação utilizada pelos mamíferos aquáticos - estes estudos criam um impacto muito profundo nos habitats submarinos, com a propagação de ruídos agressivos de decibéis altíssimos. Se a mineração em mar profundo avançar, muito acrescida será a exposição a este tipo de violência acústica. O som viaja quatro vezes mais rápido no mar do que em terra, propagando-se com celeridade em grande distância. A sobrecarga dos canais de navegação e a atividade de extração submarina à escala industrial têm já um grande impacto nos mamíferos aquáticos, destabilizando fortemente os seus canais de comunicação e a sua mobilidade. Os efeitos cumulativos deste tipo de atividade, que está a ser planeada junto a áreas marinhas protegidas e a canais de circulação de uma larga quantidade de biodiversidade marinha, irá influenciar directamente os habitats em questão alterando profundamente os ecossistemas subaquáticos.


Defendendo a literacia consciente

Defendendo que o projecto de literacia do mar seja desenvolvido de forma consciente, precisaremos de formas de estudo precaucionárias e respeitosas da fragilidade dos ecossistemas naturais e de plataformas de jurisdição sensatas que acompanhem a proteção dos fundos marinhos e da rica biodiversidade que neles habita, de forma integral. Para tal, deveremos ter em conta um amplo olhar sob os efeitos alargados da nossa intervenção sobre outros ecossistemas, dos quais somos co-dependentes, não apenas nós, mas tantas outras espécies. Deveremos ter em conta a amplitude tangível, mas também mais invisível do espectro das nossas  acções, como se coloca no caso da violência acústica, ou da acumulação exponencial e potencialmente imprevisível da pegada humana além da escala temporal que conhecemos. É urgente reposicionarmo-nos de forma humilde e sensata dentro das ecologias nas quais estamos inseridos, revendo a impreterível condição e direito do não-humano.