Apostar nas renováveis

Há um acordo cada vez mais generalizado que a rápida progressão das alterações climáticas é real e que irá afetar toda a população humana no decorrer das próximas gerações. Reconhecendo isto mesmo, os líderes mundiais concordaram, em dezembro de 2015, que estava na altura de travar o aumento da temperatura global. Na COP21, 195 países assinaram o Acordo de Paris que, entre outros objetivos, pretende assegurar que o aumento da temperatura média global fica abaixo de 2°C acima dos níveis pré-industriais e limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. 

Portugal foi um destes países e o Ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, defendeu que Portugal estava preparado para cumprir as principais decisões do acordo contra as alterações do clima, nomeadamente em termos de redução de emissões de gases com efeito de estufa, deixando de utilizar energias fósseis em 2050. Portugal tem, a partir de agora, 33 anos para honrar este compromisso internacional. 

Apesar do compromisso político já de longa data de Portugal com o Protocolo de Kyoto e com as negociações que se seguiram, a poucos meses antes da COP21, um conjunto de entidades e cidadãos sentiu necessidade de fundar a Plataforma Algarve Livre de Petróleo (PALP). O irónico antagonismo tem motivado o início de muitos movimentos similares (agora espalhados por todo o país) e tem gerado indignação por parte de cidadãos que não compreendem como é que um país que depende tanto de atividades como a pesca e o turismo (e sem tradição na exploração petrolífera), está – no século XXI e ratificando o Acordo de Paris – a virar-se para a prospeção e exploração de hidrocarbonetos. 

Numa altura em que, por todo o mundo, se procuram energias alternativas que substituam os combustíveis fósseis – e, mais uma vez, tendo assumido um claro compromisso nesse sentido –, o Governo português faz uma aposta clara na exploração de hidrocarbonetos. Sabendo que o uso de combustíveis fósseis é responsável por uma parte significativa do aquecimento global e pela destruição de habitats ecologicamente sensíveis e economicamente fundamentais para a população humana, Portugal deveria tomar passos concretos no sentido de aproveitar as fontes de energia renováveis que existem na extensa zona marinha sob a sua jurisdição. Um primeiro passo deveria ser o desenvolvimento de investigação e projetos piloto de aproveitamento de energia solar, das ondas e das marés, entre outras, criando condições para fazer do nosso país um pioneiro a nível mundial nesta área. Isto permitiria não só o aproveitamento dos recursos energéticos e uma maior independência a este nível mas também a exportação de conhecimento e tecnologia para outros países.

No entanto, apostar na inovação e na capacitação dos recursos humanos não é uma responsabilidade exclusiva do Governo. Nas nossas escolhas diárias, temos a hipótese de contribuir para um futuro sustentável. Enquanto cidadãos, é tentador não nos preocuparmos e deixarmo-nos levar pela confortável ilusão de que não temos o poder de travar o processo. Movimentos como a PALP, que tem encabeçado a luta contra a exploração petrolífera, têm demonstrado o contrário e 42 mil objeções ao chamado furo de Aljezur bem como as demonstrações públicas de descontentamento atestaram que a cidadania ainda pode ser ativa e que há compreensão sobre os conceitos de «domínio público» e «bem público».

Alternativas à mineração em mar profundo estão disponíveis e podem ser encontradas na transição que as economias podem fazer no sentido de abordagens mais sustentáveis. A redução da procura de matérias-primas através de um melhor design dos produtos, a partilha, reutilização, a reparação e reciclagem, o desenvolvimento de novos materiais, uma transição para sistemas energéticos e de mobilidade inteligentes e mudanças estruturais nos padrões de consumo e estilo de vida são fundamentais para a solução. 

Até 90% do lixo electrónico mundial é ilegalmente comercializado ou despejado. Todos os anos na UE, 100 milhões de telemóveis deixam de ser utilizados e menos de 10% são reciclados. Isto representa uma enorme quantidade de ouro e outros metais desperdiçados. Estes valores são indicadores de um enorme potencial nas políticas que estimulam o aumento de uma eficiência dos recursos a nível mundial e a importância de nos centrarmos, por exemplo, na mineração urbana em vez da exploração no mar profundo. Os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), e em particular o ODS 12 (“Assegurar o consumo sustentável e padrões de produção”) e o ODS 14 (“Conservar e utilizar os oceanos, mares e recursos marinhos de forma sustentada”), definem o enquadramento global para repensar a nossa economia. A menos que paremos para pensar, arriscamo-nos a delapidar um dos nossos mais preciosos ecossistemas que desempenha uma papel vital na saúde do nosso planeta, em nome de um sonho obsoleto de crescimento ilimitado.